Drone no sertão baiano

Segue o poste! Drones no sertão baiano

NA DÚVIDA, SEGUE O POSTE!

A cena era engraçada, se não fosse trágica. Em 2017, eu, meu sócio e um ajudante perdidos e espremidos em meio aos drones e tantos outros equipamentos no meio do sertão baiano.

Naquela altura estávamos confiantes e já meio que trabalhando no automático.

Estávamos realizando um enorme mapeamento linear, que no final teria mais de 500 km.

Após um começo repleto de obstáculos, pouco a pouco suplantados, o andamento do serviço já fluía muito bem.

Na altura do km 100 nossos drones decolavam e pousavam em intervalos pequenos de tempo. Nossa equipe já estava “azeitada”, cada um fazendo sua parte da forma mais correta, rápida e consciente possível. Isso tudo em meio a um calor que provavelmente até o diabo reclamaria.

Como disse um morador que cruzamos pela estrada com aquele sotaque característico da região: “- Rapazzz, aqui nesse sertão de Deus tem no mínimo 01 sol para cada ocupante”.

Cada um de nós chegava a consumir 4 litros de água por dia. O tablet só trabalhava se fosse dentro do ar condicionado, quando saía no tempo a maçãzinha acusava “high temperature” e depois puft, apagava… tendo acontecido algumas vezes durante as missões.

CONFIANÇA É TUDO NESSA VIDA

Então, baseado na nossa confiança e experiência resolvemos pegar um atalho para chegar no próximo ponto que precisávamos para seguir com o trabalho. Porém, uma ponte inacabada no local nos obrigaria a dar uma volta de quase 35 km para chegar do outro lado. Para piorar, neste dia em particular, devido a uma gripe, estávamos sem nosso “lobo do deserto”, que era como chamávamos nossos guias locais.

Por outro lado, estávamos bem confiantes que seguindo nosso minucioso planejamento era só seguir pela lateral do trecho da ferrovia e conseguiríamos cumprir os kms programados para aquele dia.

Partimos então para o trabalho até que nos deparamos com a tal ponte inacabada. Aqui é importante salientar que a tal ponte inacabada ficava no meio do nada… nada para a direita, nada para a esquerda, nada para lado algum! Somente sertão e sertão. Tirando os zangões que teimavam em atacar os drones vez ou outra, nem inseto se via naquele deserto escaldante.

Em uma brevíssima reunião todos decidimos por seguir e contornar o vale por onde se viam apenas as pilastras principais da obra por fazer.

Naquele ponto achávamo-nos preparados para tudo.

Volta um pouquinho na estrada então e logo ali (logo ali??) na nossa cara uma estradinha meio de terra, meio de pedras grandes que por sorte se abria exatamente na direção que precisávamos. Sem pestanejar entramos.

Rodamos 5, 10 e depois 15 km com a percepção de que estava tudo bem e dali a pouco encontraríamos novamente o trecho da ferrovia.

Curva para cá, curva para lá, reta em direção ao nada… segue o jogo… deve estar chegando, pensávamos.

Sinal de celular totalmente inexistente. GPS com um mapa que nos foi fornecido pelo cliente totalmente desatualizado, afinal de contas a obra já estava parada há alguns anos e nosso trabalho seria a base do recomeço.

Após mais alguns kms rodados com curvas e retas para lados já não identificávamos mais qual lado era o correto, tudo seco e tudo igual eram as duas visões que conseguíamos olhando para os lados.

Chegamos a um enorme descampado e a estrada de terra e pedra foi virando de areia e depois de mais areia… de repente foi reduzindo na largura até o momento que era só areia e nada estrada.

Voltar não era opção, afinal de contas tínhamos rodado bastante tempo na direção que achávamos correta e “teoricamente” nosso objetivo estava ali perto, em algum lugar próximo.

HOUSTON, WE’VE GOT A PROBLEM

Drone no sertão baiano

Se você já teve a sensação de estar totalmente perdido, sem qualquer noção de onde está, vai entender um pouco do que eu senti. Meus outros dois acompanhantes, com seus apps de localização e cálculos diziam saber nossa posição e para onde devíamos ir (será?), mas devo admitir que realmente eles pareciam mais tranquilos.

Eu já tinha sugerido algumas vezes levantar o drone para darmos uma espiada nas proximidades… mesmo sabendo que, na verdade, naquele plano sem

fim nós

 já conseguíamos ver ao longe no horizonte e a visão era igualzinha por todo lado. Caatinga seca!

Eu já olhava preocupado para nosso estoque de água mineral. Naquele calor intenso só faltava passar algum camelo com seu beduíno em cima.

Dizem que o mais medroso é sempre o que primeiro encontra a saída… deve ser o instinto de sobrevivência mais forte… hehehehe…

Já se tinha passado um bom tempo desde nossa decisão de contornar a ponte. Nesse ponto os outros dois já estavam entrando na minha “vibe” de esquecer o objetivo e focar apenas encontrar uma saída para retornar à civilização.

Por fim aceitaram minha sugestão, sobe o drone! Oba! Afinal de contas, mesmo perdido, cansado e torrado pelo sol, pilotar é pilotar! Quem gosta sabe! Na época peguei meu super tecnológico de última geração DJI Phantom 4 e decolei. Ate que enfim alguma coisa diferente para fazer. Bora então soltar os drones no sertão baiano!

Voei para ali, por acolá e depois uma rasante no que do alto parecia água, mas de perto se revelou apenas reflexo do sol nas pedras.

Na verdade, nem precisei voar muito para saber o que já sabíamos. Nada por lugar algum.

Ao menos o drone conseguiu nos mostrar uma área de vegetação, seca, mas um pouco mais densa há apenas alguns kms a nossa direita. Definimos então seguir por esta direção.
Desanimados e preocupados meu sócio, no banco do lado, olhava no horizonte com olhos tristes. O desanimo nos fez ficar calados por algum tempo.

Fui eu quebrei o silêncio e comentei:

– E agora? Seguimos adiante e nada de encontrar saída. Que fazemos?

A SOLUÇÃO ESTÁ NOS DETALHES

 

Meu sócio então vira para o meu lado e como se já tivesse uma resposta com uma solução pronta e definitiva solta do nada:

– Segue o poste.

Que loucura esse cara tá falando? – Pensei. Estamos no meio do nada, que poste? Cheguei à conclusão que ele começava a alucinar.

Eu aqui preocupado por onde ir e o cara me solta um “segue o poste!”. Pensei que ou era alucinação por droga ou por falta dela.

Olho para a direita, olho para a esquerda e nada… Mas logo ali na frente, às 15 para as 11 como disse o ajudante tentando me orientar pelo posicionamento dos ponteiros do relógio (afinal, quem é que indica 15 para as 11 numa situação dessas ???!!!???), se encontrava um poste! O tal poste de concreto enfincado na areia sem qualquer cabo ou conexão com qualquer rede, mas ele estava ali. Um verdadeiro e legítimo poste! E, melhor ainda, mais na frente dele tinha mais um e depois mais outro e mais outro…

– Segue o poste! Ele repetiu.

Acelerei sorrindo.

Seguimos e os postes que nos indicaram um caminho até uma pequena comunidade e então da comunidade para uma pequena estrada que nos le

pelas estradas da Bahia

vou a uma grande estrada e por fim… exatamente para nosso ponto de início daquele dia!!

No final estávamos tristes por praticamente perder um dia inteiro de trabalho perdidos rodando por lugares desconhecidos, mas também muito felizes de reencontrar o caminho para o nosso hotel.

A noite foi de inúmeras risadas. Comemos e bebemos como se não houvesse amanhã.

Mais uma história para contar.

No dia seguinte, já munidos do nosso “lobo do deserto”, tudo voltou ao normal e pudemos voltar a andar para frente para a conclusão do serviço.

Temos certeza que nos dias atuais, com a infinidade de recursos disponíveis, tudo seria mais fácil e tranquilo, com muito menos stress, mas certamente não teríamos mais esta história pra contar.

Como dizia meu avô: “Meu jovem, Experiência é tudo nessa vida!”.

 

Renato Tomé

Piloto em Comando XDRONER

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